quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um novelo de lã

O dia foi corrido! Assim, curto e grosso. Como a colocar um ponto final em qualquer possibilidade de argumentação. Conversa que não se iniciou, um projeto que não andou, um bom dia que se foi sem se fazer tarde, noite...as prioridades têm suas sutilezas, e no emaranhado da vida vamos nos perdendo, enrolados aqui e ali a caminhar em um labirinto gigante. 
Acabamos devorados! Como no mito grego do Minotauro alimentamos o monstro, dia a dia.
Impelidos pelas circunstâncias ou por escolha própria. 
Não importa! De um jeito ou de outro não há saída...alguns de nós receberam um novelo de lã das mãos de Ariadne, assim como o herói Teseu, mas abdicaram da sorte. E mesmo que matassem o monstro, perdidos permaneceriam, sem encontrar o caminho de volta. 
O dia foi corrido sim. E nas escolhas que fazemos, no imaginário de nossas prioridades, vamos nos esvaindo.
Amanhã, bom, amanhã procure um novelo de lã!


Enviado do meu iPad

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Bate à porta

Paralisa, nos rouba o fôlego. Nos deixa vencidos, e derrotados procuramos para além de nós os algozes.
Sofreguidão sem saída, sem sequer uma porta de emergência por onde pudéssemos correr.
Sentido não há, nem pra lá nem pra cá! Os caminhos, todos, levam a um mesmo lugar. Cegos tateamos em vão.
Angústia que chega sem se apresentar, sem por às claras os porquês...e por quê?
Porque, dissimulada que é, nos deixa sem saber por que nos permitimos.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

A feijoada

Estava sentado no canto da mesa. A cozinha era relativamente pequena, mas do tipo aconchegante. Armários de um lado, a pia e o fogão do outro, tomando toda a parede. No canto oposto ficava a geladeira. 
Ela se sentou a minha perpendicular, quase de costas para o restante.
Despejou sobre a mesa um punhado de feijão. Sorriu, disse algumas palavras sobre o cardápio para o dia seguinte e começou a separá-los. Um a um. Os dedos fortes de unhas escarlate, se não me engano, dançavam entre aqueles pontinhos pretos. Um pra lá, um pra cá...um pra lá, um pra cá...
Alí, naquela tarefa simples, estava a vida, a rotina, o dia a dia, nossas escolhas, o que juntamos, o que separamos. Alegrias e tristezas misturadas. O dedo impositor, assim como nosso ego, a dizer isso é bom, isso não. E isso usando apenas um sentido, ainda que os olhos não nos permitam ver além da aparência. Está escrito, frase minha não é!
A essência, guardada no sabor, ah, só no dia seguinte, quando a feijoada for servida. 
Mas aí já pode ser tarde...o sabor, ficou na mesa, no canto da cozinha...

Cem palavras...Sem Palavras!!

Uma, duas, três...conte-me, se nada melhor houver para fazer, ou, simplesmente reflita. 
Palavra que sou, já tenho certeza das minhas escolhas. Ora verbo, ora substantivo, objeto direto ou indireto, adjetivo, advérbio, pronome, às vezes até, indefinida.
Sentidos tenho muitos, e estou sempre disposta a repensá-los. Sou viva!
Arrogante às vezes, dura, sarcástica, má, cínica. Sutil, flexível, doce, carinhosa sim, apaixonante...
Estou em suas mãos! E se de mim exige clareza, deveria cobrar de si cuidado como me usa.
Nada é pior que sentir-me sozinha, como quando alguém diz "estou sem palavras", para o bem ou para o mal...nada!!!

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Uma conversa...só uma conversa!

Impressão minha ou estamos perdendo o hábito do diálogo?
Gastamos tempo precioso falando, defendendo pontos de vista, quase como um mantra, um transe hipnótico, nos satisfazendo com nós mesmos. Nada contra as ideias preconcebidas, somos feitos desse material...tudo contra a ideia de que as ideias são imutáveis, de que a sua é melhor que a minha, de que se por um instante  nos permitissemos refletir, estaríamos nos apequenando. 
Bobagem!!!
Reduzimos as conversas a um combate, quando no máximo poderiam ser defnidas, em circunstâncias extremas, como embates. 
Pense quantas vezes você se percebeu platéia, não interlocutor. Agora pense quantas vezes você fez o outro se sentir dessa mesma forma...
Pois é, centramos energia na fala e, quando ouvimos, escutamos apenas a nossa própria voz. Esquecemos que nos tornamos "eu" na troca com o outro. Somos singulares porque, em algum momento, fomos seres plurais. E aí está a beleza do diálogo verdadeiro. Não se trata de ganhar ou perder...
Não sei você, mas sinto falta de uma boa conversa!!

 

domingo, 25 de outubro de 2015

Dói o estômago

Dói o estômago a tranquilidade almejada ao abri mão de paixões, de desafios, da construção. 
Erguemos muros para nos proteger do novo. Hoje é igual a ontem. Repetimos, repetimos, repetimos...e o resultado será o mesmo! 
Matamos a possibilidade de futuro, a centelha do entusiasmo, menosprezamos a dúvida. Gostamos mesmo é da certeza. 
Risco pra quê? Já nos machucamos tantas vezes, nos decepcionamos, sofremos!! Ah, como sofremos...melhor mesmo é nos escondermos, protegidos,  da complexidade da vida.
Pelo menos aqui, por detrás dos muros, o controle é nosso, tudo faz sentido! 
Verdade que às vezes escalamos o paredão e nos permitimos uma espiada rápida, sem comprometimento, anônimo na madrugada. Vou lá e já volto, sabem como é?!
Nos satisfazemos por uns poucos instantes, perdemos o fôlego! 
Não, não podemos,  já não nos sentimos capazes, perdemos a coragem de olhar um pouco mais adiante.
E assim, mais uma vez, deixamos de agarrar a verdadeira tranquilidade de nos sentirmos inteiros, abertos à vida!!!!


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Um grito, um choro

Sentei  a poucos metros do gramado, quase no mesmo nível deste. A voz a minha frente foi aos poucos sumindo, e outra, longínqua, tomou o espaço.
Era pequeno, daquela época em que os sons são apenas sons...importante esclarecer, desde já, que a falta de capacidade de discernir entre este ou aquele não significa que sejam desprovidos de sentido, não, longe disso.
Fui arrancando de meu descanso com um grito...estava no berço, tranquilo, ainda que o ambiente estivesse imerso em tensão. Acordei assustado e claro deixei para todos, tamanha a choradeira que se seguiu.
Meu pai, de olhos fixos na televisão, saltara do sofá...braços estendidos, boca escancarada...Gooolllll!
Era o segundo da seleção brasileira. Final de Copa do Mundo.1970. Brasil e Itália.
Eu tinha seis meses de vida...agora, cá estou eu no Estádio Azteca.
Senti saudade de um tempo que não vivi. Senti saudades de abraçar meu pai e ouvi-lo contar como nossos jogadores desfilaram por aquele gramado...
Goooolllll!! Gritava um senhor ao meu lado, a pedido da guia que conduzia a visita. Ao longe, o eco das vozes de um pequeno grupo de quinze pessoas.
Gritei também!!! Pena que meu pai não estivesse ali...de certo, juntos choraríamos...