segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Amor de alma

Das palavras ditas e das caladas não sei qual dói mais. De um modo ou de outro acreditamos, sem saber porque, que a língua do outro é sempre mais ferina que a nossa própria.
Certa vez ouvi a expressão "amor de alma" e achei que tivesse entendido.
Enganei-me...não sobre o que foi dito, porque claro está. Mas justamente sobre o que não foi verbalizado, o que ficou escondido, o que não tive capacidade de perceber...o poeta Fernando Pessoa diria que "quem não vê bem uma palavra, não pode ver bem uma alma".
Se possível fosse um encontro, em um café qualquer de uma esquina qualquer em qualquer lugar, entre o poeta e o escritor angolano Pepetela, este completaria: "Os sentimentos mudam as palavras, embora estas possam ser as mesmas...".
Seguimos, sentindo as palavras, tentando olhar as pessoas.
Seguimos...


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando menos se espera...

Virei a página quando ele parou na minha frente e fechei o livro. Pegou minha mala e eu me ajeitei no banco traseiro.
Entrou e arrancou rumo ao aeroporto. Puxou conversa...
- Se eu ganhasse assim, uns três mil, arrumava uma mulher bem bonita.
Como é? Perguntei
- O livro que o senhor estava lendo...
"O que o dinheiro não compra" era o título, o último do filósofo Michael J. Sandel...dei risada e segui a conversa.
Simpático, Lucas foi falando...
- A minha é bem bonitinha. Ela não se acha, mas é sim! Fica um tempão se arrumando, creme disso, creme daquilo, puxa o cabelo pra lá, estica pra cá...já falei pra ela fazer um creme de mocotó, que nem os antigos faziam, sabe, dá uma chacoalhada no cabelo e está tudo certo. O senhor vê essas atrizes, umas mulatonas bonitas...o cabelo delas não vê pente faz um tempão, tudo natural...
A mulher dele, Cristiane, não. Horas em frente ao espelho ou no salão. Cento e vinte reais essa semana, uma fortuna para os ganhos do taxista.
- O que importa é a beleza interior, né não?, perguntou com ar afirmativo. E o pirão, claro...
Como?
- O pirão, o senhor sabe...se isso desanda aí não tem jeito. Se satisfazer sozinho dá não, não tem dinheiro que pague.
É, nem tudo o dinheiro compra, já dizia Lucas, o taxista...

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Além do próprio umbigo...

Desculpas pra lá, desculpas pra cá, desculpas por isso, desculpas por aquilo... não sei você, mas assusta-me aqueles que pedem desculpas sempre, tanto mais do que aqueles que não o fazem nunca.
Contraditório sim, explico...a desculpa constante pressupõe o erro constante. Fico com a sensação de que não há realmente uma reflexão sobre o ocorrido, e que a partir daí gere o pedido de desculpas, legitimado no arrependimento.
Este, quando sincero, quase sempre provoca dor, sofrimento, não é algo que possamos enfrentar com passividade. Definitivamente não.
O arrependimento tem foco no eu, a desculpa no outro.
O que me parece atualmente é que há uma inversão e o foco da desculpa passou a estar no eu...é muito mais um afago no próprio ego, tão somente de quem olha apenas para si...desculpas viram adereços, como um piercing no umbigo dessa gente...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Tá Bom!!!

Não acredito em promessas vazias, em mentiras tantas vezes repetidas, em verdades não ditas...
Tá bom!
Não acredito no comprometimento descompromissado, na cumplicidade efêmera...
Tá bom!
Não acredito na falta de esforço, no jeito mais fácil, sempre...
Tá bom!
Não acredito no egoísmo, em fins que justificam os meios ou em meios que não têm fim...
Tá bom!
Não acredito na falta de dialogo...
Tá bom!
Não acredito no sorriso sem graça, no gemido baixinho, no gozo fácil...
Tá bom!
Não acredito em certezas absolutas, tão pouco na personificação da dúvida, não...
Tá bom!
Não acredito na nudez, ainda que seja a única coisa a oferecer...
Tá bom!!!

sábado, 16 de junho de 2012

Não se apaga...

Implacáveis ou acolhedoras, é só uma questão de perspectiva quando olhamos as marcas deixadas na pele. Espelhos de nós mesmos, do que fomos, do que somos. E quando o amanhã chegar outras virão, prontas para ativar nossa memória, como uma fotografia. 

E assim seguimos, deixando que o tempo tatue na pele nossa história, cronologicamente, sem saltos, sem dúvidas, sem arrependimentos, talvez com alguns sobressaltos, sim, que a vida nos ofereceu.

Grafadas em letras maiúsculas estão as escolhas que fizemos...

sábado, 2 de junho de 2012

Não ligue pra ela...

O sinal fechou. Parei. Do meu lado esquerdo a ponta de uma parachoque entrou no meu campo de visão e fui acompanhando o movimento, passando pelo pneu, a lateral, até estar emparelhado com a janela. 
A mulher falava sem parar. O corpo jogado pra frente, praticamente escondido atrás do volante e a cabeça voltada para o rádio no painel. 
Quando parou de falar, se recostou no banco, por quatro, cinco segundos. Em seguida, se projetou de novo em direção ao painel, e assim sucessivamente por quase um minuto.
Isso que é tecnologia. Bluetooth!!
Imagino o vendedor explicando:
- Agora a senhora vai poder estar conversando com as amigas sem se preocupar. Não precisa mais segurar o celular. A senhora vai falar pelo rádio do carro. Perfeito!
Só faltou explicar que não precisa ficar toda torta no banco e nem colar a boca nos botões do rádio.
É ridículo sim,, mas pense, de verdade, quantas vezes eu e você já fizemos papel de bobo quando nos deparamos com uma novidade.
Por equanto só não ligue para ela para contar...você pode provocar um acidente. 



Choro

Os olhos ficaram marejados. Inundados aos poucos...até que a lágrima vence a barreira e escorre, lenta, triste, procurando caminho pelo rosto, deixando um rastro fino. 
O dedo interrompe a trajetória, desvia o curso discretamente, quase com vergonha. Espalha pela pele os resíduos, que o dorso da mão se incumbe de dar fim. Tentativa apenas, frustada. 
Juntam-se outras a primeira lágrima, e ainda que não exageradas, em quantidade suficiente para escapar ao controle.
Um gosto salgado se precipita sobre os lábios e a emoção posta para fora se internaliza. 
Fecham-se os olhos, como se fechados melhor pudessem ver as marcas deixadas. Não se pode. Abertos tão pouco...