Dias difíceis os que passaram...peço desculpas pela ausência! Vamos lá...
Em uma conversa com alguns alunos, um deles pediu que eu comentasse algo sobre o caso do italiano preso acusado de praticar crime sexual contra a filha de oito anos. Eles consideravam que a imprensa estava transformando o caso em outra "Escola Base". Para quem não se lembra, em 94, vários órgãos de imprensa publicaram denúncias contra os donos e quatro funcionários de uma escola, que estariam envolvidos no abuso sexual de crianças. A vida dos acusados foi virada de cabeça pra baixo, perderam tudo...no final, todos foram inocentados.
Bom, voltemos ao nosso assunto. Não vejo, no caso atual, que nós jornalistas tenhamos feito juízo de valor sobre os fatos. E isso me parece um bom sinal. Até porque, em coberturas desse tipo, logo se formam opiniões contrárias ou favoráveis, e não só entre os jornalistas. Por exemplo, no blog "Balaio do Kotscho" mais de 500 comentários foram postados sobre o tema. Muita gente dizendo que é uma questão de cultura, muita gente rotulando o italiano de pedófilo.
Manter o equilíbrio não é das tarefas mais simples. Crimes cometidos contra crianças geram, por si só, revolta. Nós somos impactados sim.
Por outro lado, a investigação corre sobre segredo de justiça, o que nos "obriga" a trabalhar com informações em off. Outro risco é basearmos a construção de nossas reportagens apenas no relato de pessoas que estiveram no local, sem levar em consideração os exageros ou tão pouco os preconceitos.
Não há receita para uma cobertura correta, mas há lições que podemos aprender. Atenção, sempre, é a melhor medida.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Burocracia
Histórias perdidas...porque perdida foi boa parte da vida. Abandonadas pelas famílias, esquecidas pela sociedade, enclausuradas pela justiça.
São crianças, apenas crianças. Caminhos parecidos e quase sempre o mesmo fim. Os abrigos tem centenas de histórias de meninos e meninas por serem contadas.
Não podemos contá-las. Perdidas vão permanecer as histórias. Vidas perdidas na burocracia.
Sob a tutela do estado, o Estatuto da Criança e do Adolescente é usado, muitas vezes, como uma barreira entre nós jornalistas e as crianças.
Protegê-las sempre, mas é fundamental ter em mente que falar dos assuntos relacionados a elas é antes de mais nada não esquecê-las. Já passaram por isso, lembram?
Há três semanas tentamos autorização para gravarmos entrevistas com alguns jovens abrigados, os mesmos que já retratamos em uma série de reportagens especiais no ano passado.
A resposta da promotoria? Há outros processos mais importantes...
Nosso pedido provavelmente será esquecido no fundo de uma gaveta, em algum cantinho...perdido!
São crianças, apenas crianças. Caminhos parecidos e quase sempre o mesmo fim. Os abrigos tem centenas de histórias de meninos e meninas por serem contadas.
Não podemos contá-las. Perdidas vão permanecer as histórias. Vidas perdidas na burocracia.
Sob a tutela do estado, o Estatuto da Criança e do Adolescente é usado, muitas vezes, como uma barreira entre nós jornalistas e as crianças.
Protegê-las sempre, mas é fundamental ter em mente que falar dos assuntos relacionados a elas é antes de mais nada não esquecê-las. Já passaram por isso, lembram?
Há três semanas tentamos autorização para gravarmos entrevistas com alguns jovens abrigados, os mesmos que já retratamos em uma série de reportagens especiais no ano passado.
A resposta da promotoria? Há outros processos mais importantes...
Nosso pedido provavelmente será esquecido no fundo de uma gaveta, em algum cantinho...perdido!
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Uma questão de foco
- Tik, tik...sim
- Are baba...ah, não, retrucou o outro.
Entre uma frase e outra soltavam uma dessas expressões indianas, que o sucesso da novela trouxe para o nosso cotidiano. Simples assim...até onde é simples entender dois sujeitos de sotaque nordestino arrastado conversando. Na linguagem deles tudo ia bem...a separá-los o balcão da padaria. Garçom e cliente riam das próprias palhaçadas com o novo vocabulário.
No caminho para o trabalho fiquei pensando na cena. Haveria uma história alí?? Sem dúvida. Algo capaz de ganhar o status de notícia? Difícil...pelo menos neste pequeno recorte da realidade.
Dá para ampliar a questão? A revista Exame tem um bom exemplo. Os dalits - pessoas consideradas impuras, intocáveis - foram retratadas nas páginas da última edição. A reportagem mostra o que algumas empresas indianas estão fazendo para incluí-los no mercado de trabalho.
De certo, a problemática é muito anterior à trama Global, mas é tão certo quanto o assunto hoje estar no imaginário das pessoas, ou seja, desperta interesse imediatamente.
O que quero dizer é que todo e qualquer assunto pode, sim, ser abordado por este ou aquele veículo. Tudo é uma questão de foco, para quem nós jornalistas estamos falando, afinal, nosso olhar é sempre o recorte da realidade.
Namastê, diriam os indianos...
- Are baba...ah, não, retrucou o outro.
Entre uma frase e outra soltavam uma dessas expressões indianas, que o sucesso da novela trouxe para o nosso cotidiano. Simples assim...até onde é simples entender dois sujeitos de sotaque nordestino arrastado conversando. Na linguagem deles tudo ia bem...a separá-los o balcão da padaria. Garçom e cliente riam das próprias palhaçadas com o novo vocabulário.
No caminho para o trabalho fiquei pensando na cena. Haveria uma história alí?? Sem dúvida. Algo capaz de ganhar o status de notícia? Difícil...pelo menos neste pequeno recorte da realidade.
Dá para ampliar a questão? A revista Exame tem um bom exemplo. Os dalits - pessoas consideradas impuras, intocáveis - foram retratadas nas páginas da última edição. A reportagem mostra o que algumas empresas indianas estão fazendo para incluí-los no mercado de trabalho.
De certo, a problemática é muito anterior à trama Global, mas é tão certo quanto o assunto hoje estar no imaginário das pessoas, ou seja, desperta interesse imediatamente.
O que quero dizer é que todo e qualquer assunto pode, sim, ser abordado por este ou aquele veículo. Tudo é uma questão de foco, para quem nós jornalistas estamos falando, afinal, nosso olhar é sempre o recorte da realidade.
Namastê, diriam os indianos...
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Quando o básico vira qualidade
Por entre as frestas da persiana vislumbro um pequeno movimento na redação. Não tenho a visão completa, apenas um canto dela. O restante está separado da sala por uma tapadeira de acrílico, o que deixa o fundo sombreado. Vejo vultos. O murmurinho indica que há outras seis ou sete pessoas.
Na sala, no canto oposto ao do computador, seis monitores estão ligados, mas sem som. Dois vasos, um grande e outro pequeno, tiram um pouco o ar cinza das paredes e do chão. Pequena, mas não apertada. Até bem pouco tempo a disposição dos móveis era outra, melhor agora...
Essa breve descrição é sobre minha sala, onde estou neste momento. Antes de abrir o blog estava lendo a revista Exame e me deparei com algo que...bom, que achei que poderíamos refletir juntos.
A sessão Carta ao Leitor fala do novo correspondente da publicação em Nova Iorque. Logo no comecinho o texto explica que a decisão é a materialização de algumas crenças da revista e vale a pena transcrever pelo menos uma delas: "Acreditamos em estar perto dos fatos. Acreditamos que o contato com a realidade é uma das diferenças entre o bom e o mau jornalismo".
Pois é...lembra da descrição que fiz da sala? Não seria possível se eu não tivesse vivenciado o ambiente, se eu não o conhecesse. Estar perto do que se quer retratar é princípio do jornalismo. Dizer que acredita nisso é como levantar a suspeita de que há outra possibilidade. Não, não há...e não estou falando entre bom ou mau jornalismo, mas sim entre fazer jornalismo ou não.
Curioso como algo tão básico é vendido como um diferencial. Imagine uma propaganda de carro, por exemplo, anunciando que o veículo tem quatro rodas. Fantástico!!!
Jornalista que apura, que vai pra rua, que ouve pessoas, que se emociona, que se desespera, enfim, parece coisa rara. É como o político que alardeia as próprias qualidades, entre elas, ser honesto...não dá para acreditar!!!
Na sala, no canto oposto ao do computador, seis monitores estão ligados, mas sem som. Dois vasos, um grande e outro pequeno, tiram um pouco o ar cinza das paredes e do chão. Pequena, mas não apertada. Até bem pouco tempo a disposição dos móveis era outra, melhor agora...
Essa breve descrição é sobre minha sala, onde estou neste momento. Antes de abrir o blog estava lendo a revista Exame e me deparei com algo que...bom, que achei que poderíamos refletir juntos.
A sessão Carta ao Leitor fala do novo correspondente da publicação em Nova Iorque. Logo no comecinho o texto explica que a decisão é a materialização de algumas crenças da revista e vale a pena transcrever pelo menos uma delas: "Acreditamos em estar perto dos fatos. Acreditamos que o contato com a realidade é uma das diferenças entre o bom e o mau jornalismo".
Pois é...lembra da descrição que fiz da sala? Não seria possível se eu não tivesse vivenciado o ambiente, se eu não o conhecesse. Estar perto do que se quer retratar é princípio do jornalismo. Dizer que acredita nisso é como levantar a suspeita de que há outra possibilidade. Não, não há...e não estou falando entre bom ou mau jornalismo, mas sim entre fazer jornalismo ou não.
Curioso como algo tão básico é vendido como um diferencial. Imagine uma propaganda de carro, por exemplo, anunciando que o veículo tem quatro rodas. Fantástico!!!
Jornalista que apura, que vai pra rua, que ouve pessoas, que se emociona, que se desespera, enfim, parece coisa rara. É como o político que alardeia as próprias qualidades, entre elas, ser honesto...não dá para acreditar!!!
sábado, 5 de setembro de 2009
Versões
Fogo, pedras, barricadas e muita, muita confusão. Microfones a postos e surge a versão oficial:
- A manifestação foi provocada pelos traficantes.
Assim sendo, ficamos todos mais tranquilos...nada saiu do lugar. Coronel falou, tá falado, certo? É fonte oficial, meu caro...
Durante a cobertura de um dos protestos chegamos a discutir o assunto na redação. O repórter queria valorizar a versão dos moradores, que insistiam que a manifestação havia sido provocada pela truculência da polícia.
Nós ponderamos que, apesar disso, era muito difícil eles se organizarem sozinhos. Optamos pelo caminho mais lógico talvez, sem dúvida mais fácil e nos deixamos seduzir pela versão da PM.
Aliás, a mesma versão para cinco das dez manifestações violentas ocorridas este ano em São Paulo e repercutida por todos os grandes veículos.
Bobagem, e das grandes. Quer saber? Em nenhum dos casos a polícia conseguiu provar o elo com o crime organizado. Em nenhum!
Nossa versão? Não fizemos direito nosso trabalho, nem na ocasião e nem agora, afinal, não demos a devida repercussão ao fato da polícia não ter conseguido provar o que disse.
- A manifestação foi provocada pelos traficantes.
Assim sendo, ficamos todos mais tranquilos...nada saiu do lugar. Coronel falou, tá falado, certo? É fonte oficial, meu caro...
Durante a cobertura de um dos protestos chegamos a discutir o assunto na redação. O repórter queria valorizar a versão dos moradores, que insistiam que a manifestação havia sido provocada pela truculência da polícia.
Nós ponderamos que, apesar disso, era muito difícil eles se organizarem sozinhos. Optamos pelo caminho mais lógico talvez, sem dúvida mais fácil e nos deixamos seduzir pela versão da PM.
Aliás, a mesma versão para cinco das dez manifestações violentas ocorridas este ano em São Paulo e repercutida por todos os grandes veículos.
Bobagem, e das grandes. Quer saber? Em nenhum dos casos a polícia conseguiu provar o elo com o crime organizado. Em nenhum!
Nossa versão? Não fizemos direito nosso trabalho, nem na ocasião e nem agora, afinal, não demos a devida repercussão ao fato da polícia não ter conseguido provar o que disse.
Não é matemática
Sábado pela manhã, parado em frente a banca, sorriso entremeado nos lábios. No olhar, a dúvida...qual jornal comprar?
O assunto da capa era o mesmo, a crise econômica mundial. Acontece que um deles destacava uma ideia mais pessimista sobre o momento - Crise ainda não terminou, dizem EUA e emergentes - e o outro mais otimista - G-20 já discute pós-crise e fim dos pacotes de estímulo.
Enfoque diferente é regra, não exceção. E é aí que está justamente o sabor do jornalismo. Não há erro em nenhum dos casos, mas tão somente a informação foi trabalhada a partir de um ou outro prisma. Leituras diferentes de uma mesma realidade...e que assim seja sempre!
Três minutos passados, o rapaz em frente à banca toma a decisão...vai levar os dois, afinal, o conhecimento tem um preço, como diz um dos jornais, e sempre haverá uma mosca para te atormentar, diz o outro.
O assunto da capa era o mesmo, a crise econômica mundial. Acontece que um deles destacava uma ideia mais pessimista sobre o momento - Crise ainda não terminou, dizem EUA e emergentes - e o outro mais otimista - G-20 já discute pós-crise e fim dos pacotes de estímulo.
Enfoque diferente é regra, não exceção. E é aí que está justamente o sabor do jornalismo. Não há erro em nenhum dos casos, mas tão somente a informação foi trabalhada a partir de um ou outro prisma. Leituras diferentes de uma mesma realidade...e que assim seja sempre!
Três minutos passados, o rapaz em frente à banca toma a decisão...vai levar os dois, afinal, o conhecimento tem um preço, como diz um dos jornais, e sempre haverá uma mosca para te atormentar, diz o outro.
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Mais realista que o rei
Toca fogo, toca fogo...grita o morador.
Morador??? Sim. Revoltados com a morte de uma estudante de 17 anos, vítima de uma bala perdida, protestaram. Interditaram ruas de acesso à favela, queimaram veículos.
Moradores??? Sim. Dezenas deles...pais de família, trabalhadores, jovens e, claro, alguns vândalos.
Vândalos??? Sim. E mais, criminosos. Treze veículos incendiados...de outros tantos pais de família, de outros tantos trabalhadores, de outros tantos moradores...
Adjetivar o texto jornalístico é sempre muito complicado. Nas salas de aula ou nas redações país afora existe aquela regrinha básica de que não devemos atribuir juízo de valor. Relatamos os fatos, a conclusão cabe ao telespectador.
Isenção é sem dúvida nossa ferramenta básica. Mas, me perdoem os puristas, não nomear corretamente aquilo que se vê é fugir da responsabilidade, e no mínimo, ser mais realista que o rei.
Morador??? Sim. Revoltados com a morte de uma estudante de 17 anos, vítima de uma bala perdida, protestaram. Interditaram ruas de acesso à favela, queimaram veículos.
Moradores??? Sim. Dezenas deles...pais de família, trabalhadores, jovens e, claro, alguns vândalos.
Vândalos??? Sim. E mais, criminosos. Treze veículos incendiados...de outros tantos pais de família, de outros tantos trabalhadores, de outros tantos moradores...
Adjetivar o texto jornalístico é sempre muito complicado. Nas salas de aula ou nas redações país afora existe aquela regrinha básica de que não devemos atribuir juízo de valor. Relatamos os fatos, a conclusão cabe ao telespectador.
Isenção é sem dúvida nossa ferramenta básica. Mas, me perdoem os puristas, não nomear corretamente aquilo que se vê é fugir da responsabilidade, e no mínimo, ser mais realista que o rei.
Assinar:
Postagens (Atom)