Ela jogou uma balde de água sobre mim...
- Isso é pra você se limpar, sua negrinha suja.
O relato me foi contado por uma produtora angolana com quem tive o prazer de trabalhar. A humilhação sofrida por ela não foi causada por um branco qualquer, o que já seria absolutamente absurdo, hipócrita, canalha, porco...o escárnio veio de um outro negro, mulato como na verdade a vizinha se considerava.
Por incrível que pareça o racismo em Angola está mais presente do que em muitos países de maioria branca. De maneira simplista, isso tem relação com a colonização e o processo de independência. Em oposição ao domínio branco dos portugueses, o movimento nacionalista resgatou as raízes negras e valorizou as diferenças de pele.
Fugidos, os portugueses deixaram para trás muitos filhos bastardos, mulatos, que também passaram a perseguir e a serem perseguidos...uma guerra que se estende agora no período de paz.
sábado, 6 de março de 2010
Entrar pode
Sempre achei que supermercados dizem muito sobre um povo. Pode parecer loucura, mas quando estou fora do meu país gosto de visitá-los. Somos movidos a consumo, ou não?
Em Luanda fui a dois deles. Um é uma rede internacional, com a cara dos estrangeiros que lá vivem. Nos corredores, sempre muito iluminados, esbarramos mais em brancos que em negros. Os preços são altos e quase a totalidade dos produtos importados. O país, que vive um processo de reconstrução nacional depois de longos anos de guerra, pouco produz, e quando o faz, raramente consegue escoar a produção de verduras e legumes, por exemplo, para os centros urbanos. Angola já foi sim um grande produtor de alimentos, mas as lavouras e as estradas foram completamente arrasadas.
O outro supermercado é uma rede nacional. Até 2002, se não estou enganado, compravam ali os camaradas do partido, quando o país rezava pela cartilha do comunismo. O povo? Ah, esse não podia entrar...
Com adoção do sistema de livre mercado, as portas se abriram para todos. Entrar já podiam...comprar era uma outra questão. Faltava dinheiro e ainda falta para a maioria absoluta da população.
Para eles, entre o comunismo e o consumismo, resta comer com os olhos...
Em Luanda fui a dois deles. Um é uma rede internacional, com a cara dos estrangeiros que lá vivem. Nos corredores, sempre muito iluminados, esbarramos mais em brancos que em negros. Os preços são altos e quase a totalidade dos produtos importados. O país, que vive um processo de reconstrução nacional depois de longos anos de guerra, pouco produz, e quando o faz, raramente consegue escoar a produção de verduras e legumes, por exemplo, para os centros urbanos. Angola já foi sim um grande produtor de alimentos, mas as lavouras e as estradas foram completamente arrasadas.
O outro supermercado é uma rede nacional. Até 2002, se não estou enganado, compravam ali os camaradas do partido, quando o país rezava pela cartilha do comunismo. O povo? Ah, esse não podia entrar...
Com adoção do sistema de livre mercado, as portas se abriram para todos. Entrar já podiam...comprar era uma outra questão. Faltava dinheiro e ainda falta para a maioria absoluta da população.
Para eles, entre o comunismo e o consumismo, resta comer com os olhos...
Beijo, me liga!
Cheguei ao aeroporto pouco mais de sete horas para fazer o check in. A fila era pequena, mas nem com isso precisei me preocupar. Um funcionário da empresa se encarregou de todo o trâmite. Entregou meu passaporte, escolheu o assento e despachou a bagagem...fiquei surpreso com a eficiência e a rapidez, algo fora do comum em Luanda.
Depois de quase dois meses você começa a se acostumar com a burocracia. Ela está incrustada em tudo, nada é fácil, nada é simples. O aparelho do estado, construído ao longo dos últimos 30 anos, faz da dificuldade o alicerce para se manter de pé. É a forma de ter o controle absoluto de tudo o que acontece, inclusive da informação.
Imagine que você pretenda fazer uma reportagem sobre os parques nacionais de Angola, um assunto aparentemente de pouca controvérsia, certo? Não lá...
O primeiro passo é descobrir a que Ministério o tema está ligado. Depois é preciso pedir autorização para ter informações como, por exemplo, quantos parques há, qual o tamanho deles, que tipo de fauna e flora encontramos e por aí afora.
O destinatário envia então uma resposta dizendo que recebeu o pedido e vai despachá-lo para a pessoa apta a fornecer os dados. Isso pode levar alguns dias, não raro semanas. Ah, não imagine que essa negociação é feita por e-mail, eles não confiam em plataformas eletrônicas, nem tão pouco em telefones. Só olho no olho...
Daí minha surpresa com o que se passou no aeroporto. Nem ao balcão da companhia eu fui, o funcionário não conferiu se era eu mesmo que iria embarcar com aquele passaporte. Sabe aquele bordão “cara crachá, cara crachá”? Nada, absolutamente nada...
A questão é que o sistema que cria dificuldades inúteis, também cria as “facilidades”, conhecidas por nós como propina, por eles como gasosa. Os funcionários das companhias aéreas trocam a eficiência por cartões de celulares pré-pagos. Simples assim...
Depois de quase dois meses você começa a se acostumar com a burocracia. Ela está incrustada em tudo, nada é fácil, nada é simples. O aparelho do estado, construído ao longo dos últimos 30 anos, faz da dificuldade o alicerce para se manter de pé. É a forma de ter o controle absoluto de tudo o que acontece, inclusive da informação.
Imagine que você pretenda fazer uma reportagem sobre os parques nacionais de Angola, um assunto aparentemente de pouca controvérsia, certo? Não lá...
O primeiro passo é descobrir a que Ministério o tema está ligado. Depois é preciso pedir autorização para ter informações como, por exemplo, quantos parques há, qual o tamanho deles, que tipo de fauna e flora encontramos e por aí afora.
O destinatário envia então uma resposta dizendo que recebeu o pedido e vai despachá-lo para a pessoa apta a fornecer os dados. Isso pode levar alguns dias, não raro semanas. Ah, não imagine que essa negociação é feita por e-mail, eles não confiam em plataformas eletrônicas, nem tão pouco em telefones. Só olho no olho...
Daí minha surpresa com o que se passou no aeroporto. Nem ao balcão da companhia eu fui, o funcionário não conferiu se era eu mesmo que iria embarcar com aquele passaporte. Sabe aquele bordão “cara crachá, cara crachá”? Nada, absolutamente nada...
A questão é que o sistema que cria dificuldades inúteis, também cria as “facilidades”, conhecidas por nós como propina, por eles como gasosa. Os funcionários das companhias aéreas trocam a eficiência por cartões de celulares pré-pagos. Simples assim...
terça-feira, 2 de março de 2010
Um lugar qualquer...
Ele está no meio de nós. Largado, jogado, depositado…com todas as nuances, mesmo que sutis, que tais palavras carregam.
Nos misturamos a ele a ponto de perder a noção de quem primeiro ocupou aquele espaço. Convivemos literalmente, ainda que reclamemos por vezes a presença do outro. É raro admitirmos que se ali está é porque ali o deixamos…
E olha que ele todos os dias se faz notar. O cheiro forte nos invade as narinas, nos revira o estômago, nos enche a cabeça de imagens, nos impregna o corpo.
Espaços já não há, pelo menos no sentido abstrato do que é meu e do que é de todos. Nossos caminhos se cruzam, e seguimos desviando de obstáculos que nós mesmo colocamos.
Onde vamos parar? Na próxima montanha de lixo em uma esquina qualquer de Luanda...
Nos misturamos a ele a ponto de perder a noção de quem primeiro ocupou aquele espaço. Convivemos literalmente, ainda que reclamemos por vezes a presença do outro. É raro admitirmos que se ali está é porque ali o deixamos…
E olha que ele todos os dias se faz notar. O cheiro forte nos invade as narinas, nos revira o estômago, nos enche a cabeça de imagens, nos impregna o corpo.
Espaços já não há, pelo menos no sentido abstrato do que é meu e do que é de todos. Nossos caminhos se cruzam, e seguimos desviando de obstáculos que nós mesmo colocamos.
Onde vamos parar? Na próxima montanha de lixo em uma esquina qualquer de Luanda...
segunda-feira, 1 de março de 2010
Espera...
Cedo ainda…o sol não apareceu com a força de sempre, mas vai dar as caras ao longo do dia. Abafado como ontem, como amanhã.
No sábado Luanda segue o ritmo de tantos outros lugares no mundo, mais calma, menos caótica. Da varanda do prédio da empresa ouço o burburinho da rua. Estou no centro da cidade. Os edifícios ao redor são antigos e se beleza tiveram há muito se perdeu. Antenas parabólicas penduradas na fachada, aparelhos de ar condicionado, roupas a secar nos varais esticados para fora…nos telhados é possível avistar as caixas d´água, azuis, verdes.
De um canto a outro erguem-se novas construções. A minha frente, mais ou menos a uns quinhentos metros, há uma obra inacabada. Não sei há quanto tempo, mas há tempo suficiente para já se ter perdido a referência. Uma carcaça de 12 andares, sem acabamento, deixando a mostra os blocos vermelhos…salpicados de pontos coloridos.
Roupas… roupas sim, de uma gente que invadiu a obra. A realidade concreta de quem espera,espera,espera por dias melhores…
No sábado Luanda segue o ritmo de tantos outros lugares no mundo, mais calma, menos caótica. Da varanda do prédio da empresa ouço o burburinho da rua. Estou no centro da cidade. Os edifícios ao redor são antigos e se beleza tiveram há muito se perdeu. Antenas parabólicas penduradas na fachada, aparelhos de ar condicionado, roupas a secar nos varais esticados para fora…nos telhados é possível avistar as caixas d´água, azuis, verdes.
De um canto a outro erguem-se novas construções. A minha frente, mais ou menos a uns quinhentos metros, há uma obra inacabada. Não sei há quanto tempo, mas há tempo suficiente para já se ter perdido a referência. Uma carcaça de 12 andares, sem acabamento, deixando a mostra os blocos vermelhos…salpicados de pontos coloridos.
Roupas… roupas sim, de uma gente que invadiu a obra. A realidade concreta de quem espera,espera,espera por dias melhores…
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Dizer o quê?
- O senhor é casado?
- Sou sim, e tenho cinco filhos. Três da primeira mulher e dois com a atual.
Puxei a conversa com o motorista enquanto estávamos parados no engarrafamento. Quando a guerra chegou a província onde vivia, ele e a mulher estavam trabalhando. Não tiveram tempo de se encontrar e planejar a fuga. Cada um correu para um lado e os dois se perderam.
Muito tempo depois, quando a paz chegou, chegaram também os fantasmas daquele período. A mulher tinha sido violentada pelos guerrilheiros, feita escrava sexual.
Com as mãos no volante e sem se voltar para mim ele desabafou:
- Não foi culpa dela, eu sei…mas eu não quis mais ficar com ela.
Sim, ao se reencontrarem, depois de anos de guerra, não fizeram as pazes, não comemoraram. Ele abandonou a mulher depois de tudo pelo que ela tinha passado. A fuga sozinha, o corpo tomado pelos soldados em troca da vida, as humilhações, privações…
Fiquei em silêncio, olhando pela janela do carro…aquele senhor, sentado ao meu lado, me parecia menos humano agora.
O resto da viagem fizemos sem trocar palavras.
- Sou sim, e tenho cinco filhos. Três da primeira mulher e dois com a atual.
Puxei a conversa com o motorista enquanto estávamos parados no engarrafamento. Quando a guerra chegou a província onde vivia, ele e a mulher estavam trabalhando. Não tiveram tempo de se encontrar e planejar a fuga. Cada um correu para um lado e os dois se perderam.
Muito tempo depois, quando a paz chegou, chegaram também os fantasmas daquele período. A mulher tinha sido violentada pelos guerrilheiros, feita escrava sexual.
Com as mãos no volante e sem se voltar para mim ele desabafou:
- Não foi culpa dela, eu sei…mas eu não quis mais ficar com ela.
Sim, ao se reencontrarem, depois de anos de guerra, não fizeram as pazes, não comemoraram. Ele abandonou a mulher depois de tudo pelo que ela tinha passado. A fuga sozinha, o corpo tomado pelos soldados em troca da vida, as humilhações, privações…
Fiquei em silêncio, olhando pela janela do carro…aquele senhor, sentado ao meu lado, me parecia menos humano agora.
O resto da viagem fizemos sem trocar palavras.
Cá estou...
Já se vão quase dois meses que aterrisei em outras terras. Aqui tem muito da gente daí e ao mesmo tempo uma distância infinita. Durante esse período que cá estou preferi não escrever…por medo.
Sim, medo de um olhar estereotipado, de impressões simplistas demais, ainda que agora pouco tenham de profundas. Esse novo universo se revela dia a dia, por vezes motivador, por vezes assustador. São esses sentimentos que quero dividir com vocês.
Lembro que quando contei que viria para Angola as pessoas, em geral, faziam uma cara de espanto seguida da exclamação: África!!!!!
Será que ao contar que iria para a França, diriam: Europa! Não lembro de ninguém dizer América do Norte ao se referir aos Estados Unidos.
Só os países do continente africano são vistos como um todo, sem identidade…
Essa é uma das dívidas que temos em relação aos povos daqui. E acreditem, muitas são impagáveis!!!
Sim, medo de um olhar estereotipado, de impressões simplistas demais, ainda que agora pouco tenham de profundas. Esse novo universo se revela dia a dia, por vezes motivador, por vezes assustador. São esses sentimentos que quero dividir com vocês.
Lembro que quando contei que viria para Angola as pessoas, em geral, faziam uma cara de espanto seguida da exclamação: África!!!!!
Será que ao contar que iria para a França, diriam: Europa! Não lembro de ninguém dizer América do Norte ao se referir aos Estados Unidos.
Só os países do continente africano são vistos como um todo, sem identidade…
Essa é uma das dívidas que temos em relação aos povos daqui. E acreditem, muitas são impagáveis!!!
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