segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

De que somos feitos?

De saberes que nem sempre sabemos concatenar. São díspares, difusos, caóticos...não se amalgamam em discurso lógico e coerente. Perdem-se porque antes neles nos perdemos.
Quer saber? Não importa o que se sabe...quando não nos paralisa por absoluto egocentrismo, serve tão somente como uma bússola a nos guiar por saberes ainda não descobertos.
Ah, processo angustiante, sem fim...é do inconformismo que ele se nutre.
E ainda que saibamos que o saber não nos garante chegar a algum lugar, o não saber, sabemos, leva a lugar algum.

Na linha do tempo

Quando o trem apita, desce a escada do sobrado, de janelas azuis e paredes brancas, sem muita ligeireza, mas em tempo suficiente para receber quem por aquelas paragens decide ficar...é essa uma das maiores alegrias de um senhor de cem anos, completados hoje.
Pelo que ouvi das histórias contadas por um dos seus netos, ditou o ritmo da vida como um maquinista que de tanto seguir viagem pela mesma estrada conhece as nuances de aclives e declives, e sabe que mais hora ou menos hora, a planície vai chegar. Por isso, aprecia cada momento do caminho.
Eu já tinha estado com ele uma vez. Me recebeu sem cerimônia e foi logo oferecendo um café. Ao entrar, o cheiro da casa me conduziu a infância, quando viajava com minha avó para Lins, no interior de São Paulo.
Sentado ao redor da mesa da cozinha me deu uma saudade danada...
Ah! Se por acaso você passar por esse cantinho do mundo, alí na Vila de Santa Isabel, procure pelo senhor Gustavo José Wernersbach. Tome um café, leve um dedo de prosa e quem sabe você descubra que o tempo é só uma estrada...

domingo, 3 de outubro de 2010

Quem é esse tal pragmatismo?

Virou moda nos últimos anos, ganhou corpo, está ao seu lado agora, a espreita...
Não tenho nada contra as escolhas racionais, mas que mal há em ser passional às vezes?
Que coisa chata! Discursos insossos, falta de embates.
Lembro quando nossas discussões vinham carregadas de simbolismo: “A esperança vai vencer o medo”. Não importava o lado, importava sim que havia sentimento nas posturas que defendíamos. Éramos apaixonados! Discutíamos com desconhecidos ou com os amigos.
Havia graça, humor, espaço para o politicamente incorreto. E não estou falando dos “Tiriricas” da vida, afinal, fazer piada assim é que é ser pragmático.
Faço coro com Arnaldo Antunes: Socorro!!!
“Eu não estou sentindo nada!
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir...”

Onde quer que a gente esteja

Uma brisa úmida entra pela porta da varanda e os sinais de chuva invadem a sala. Os ruídos ouvidos ao longe dão conta de que a noite segue movimentada lá fora, pelo menos o que resta dela.
Normalmente, essa hora da madrugada, estou em um sono profundo, mas hoje inverti o dia pela noite. Dormi a tarde um sono satisfeito. Horas antes almocei com amigos. Papo animado, regado a cerveja, feijoada e...lembranças.
Paulista que sou, longe de casa, viro alvo frequente das perguntas: Sente falta de São Paulo?
Não, sinto falta dos amigos. E como sinto falta! Mesmo daqueles que pouco encontrava por causa da correria do dia-a-dia. Sempre atrasado, sempre cheio de coisas a resolver, cheio de trabalho, cheio...restava meu canto.
A casa da gente é onde quer que a gente esteja, mas são os amigos que nos fazem criar raízes.
Amanhã vai chover!

sábado, 21 de agosto de 2010

Alô, alô

Cheguei à poltrona e ela estava ocupada. Ocupada também estava a moça. Por volta dos trinta, morena, magra, celular no ouvido e falando alto.
Eu ia dizer que aquele era o meu lugar. Havia chegado cedo ao aeroporto para fazer o check in, justamente para conseguir um lugar na saída de emergência.
Classe econômica sabe como é: aperrrrtaaadooo!!!
Alí, pelo menos, consigo esticar as pernas. Meu lugar era ao lado da janela, mas deixa pra lá...
- Tudo bem, pode ficar.
Sentei na poltrona do meio. Abri o livro e resolvi relaxar....
Quase vinte minutos se passaram até que todos os passageiros estivessem acomodados e as portas do avião fechadas. Foram vinte minutos da moça falando ao telefone.
- Menina, fiz os exames...daquele probleminha que eu te contei...é, quando estava menstruada...
Daí pra frente relatou os conselhos médicos e os cuidados que deveria ter nos próximos dias.
Eu, e pelo menos metade dos passageiros ficamos com dó do namorado. Ah, ela também, pela papo...
Lembro, quando criança, que os mais velhos diziam que era falta de educação ficar ouvindo a conversa dos outros.
O que dizer dos tempos atuais???

sábado, 7 de agosto de 2010

Meu pai, meu amigo

Já se vão trinta, trinta e poucos anos...a arrumação começava logo cedo em casa. O tal do “lúdico” sempre fez parte da vida minha e de meu irmão.
Um enorme caixote, papai preenchia com serragem até o topo. Depois colocava peixinhos numerados em forma de cartolina com uma pequena argola na boca. Atrás desse mar de fantasia, havia sempre uma prateleira com inúmeros brinquedos.
Uma fita separava a criançada dos prêmios e aqueles que conseguiam pescar, ganhavam. Simples, mas muito divertido...
Em outras ocasiões, papai nos vendava. O objetivo era estourar uma grande bexiga, cheia de balas e doces, presa no teto. Com uma vareta na mão virávamos o centro das atenções. A cada tentativa um murmurinho se espalhava pela sala. Mais pra lá, mais pra cá...
Ao longo da vida, nossas brincadeiras de criança se repetiram inúmeras vezes. A cada peixe fisgado, meu pai esteve lá. A cada peixe que deixamos escapar, meu pai esteve lá. A cada tentativa de estourar as bexigas, meu pai esteve lá...
Nem sempre comemoramos, mas sempre estivemos juntos. Ainda que ele quisesse nos guiar, deixou que seguíssemos nossos caminhos. Não deve ter sido fácil, bem sei, mas aí está a sabedoria.
Se da casa dele partimos em busca de nossas histórias, para casa dele voltamos para contar nossas aventuras. É sempre bom avistarmos um porto seguro em alto mar!

sábado, 26 de junho de 2010

Penso no mar

Apago a luz, deito, recosto a cabeça no travesseiro, mas ela insiste em não descansar. Dezenas de pensamentos, a maioria improdutivos é verdade...permita-me ser generoso comigo nesse momento.
A cabeça tem vida, segue os próprios caminhos, nem sempre em paz com o corpo. Obriga-o a revirar de um lado para outro noite a dentro. É uma luta sim, daquelas vividas por Santiago, o personagem de Hemingway.
Penso no mar. Não nos seus mistérios, não na grandiosidade, não na violência. Vislumbro a marola a beira da praia, em movimentos constantes, ainda que disformes. A marola que forma desenhos para no segundo seguinte apagá-los, me leva para as profundezas.
Durmo!!
Ao acordar espio por entre as janelas...ele está lá. O mar me trouxe de volta e sigo em frente. O poeta já dizia:” minha jangada vai sair pro mar...meu bem querer...”