quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Pequeno poder

Sabe com quem está falando?
Eita perguntinha chata, daquelas de tirar qualquer um do sério mesmo.
E acontece comigo, e como...
Ainda que seja uma pergunta ela não pretende uma resposta, pelo contrário, impõe o silêncio, castra o dialogo.
Quase sempre vem embrulhada em ironia, sem falar no grau de petulância que nem sequer cabe no sujeito. E só para seguir na mesma linha da arrogância, quase sempre também quem pergunta não é ninguém.
Arrisco dizer até que ela demonstra o grau de civilidade do interlocutor.
Sim, por trás da singela frase há uma ideia de poder  ultrapassada, aquela que não admite contestação, que valoriza o monólogo...
Apenas a título de reflexão, um dos filósofos que conceituou o poder, Michael Foucault, falava que o poder é exercido em rede, não há um entidade centralizadora.
Na era da informação parece que nem mesmo os "comunicólogos", principalmente alguns assessores de imprensa travestidos de jornalistas, entendem.
Para sua pergunta só nos cabe a resposta: não amigo(a), não sei.
Ah!! E nem me importa...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Voltei...

De longe te olho...já faz algum tempo que não trocamos palavras, carinhos, resmungos.
O teu silêncio me angustia. Ah! E o pior é saber que você sabe. Isso sim é um tormento. A sua quietude tem menos de ignorar e mais de provocar.
Palavras não ditas me parecem ameaçadoras. Impelem-me a ação, não ao repouso.
Penso, procuro algo para te dizer...
Parece pálida, mas sou eu que me sinto sem vida, ainda que a vida vá bem, obrigado.
Peço desculpas àqueles que torceram pelo nosso relacionamento...chegamos a essa situação por desleixo tão somente meu.
Cá estou... Quero de novo ser provocado pelo silêncio branco da tua cara, e ainda que não goste do que digo, respeita, e sutilmente me faz refletir amanhã sobre o que disse hoje.
Quero as histórias escritas todos os dias. É isso que me acalma!!!

sábado, 9 de abril de 2011

Histórias de nós

- Já fiz muita coisa errada na vida...
Entre um trago e outro no cigarro, intercalado por breves momentos de silêncio, como dando tempo para a voz da lembrança aparecer, aquele rapaz ao meu lado foi falando dos descaminhos por que passou.
- Esse negócio de que crack é doença...é safadeza, isso sim.
Ele conta que usou a droga por dois anos, mas um dia decidiu parar, de consumir pelo menos.
- Alexandre, eu ia buscar a pedra na boca e via os caras com carro novo, roupas...Aí pensei: esse negócio tá me dando prejuízo. Eu vou é vender.
Entrou para o tráfico e entre uma correria e outra repassava armas vindas do Rio de Janeiro para os morros capixabas.
- Um dia um colega me chamou pra “matá um cara aí”. Tirei o revólver da cintura e falei: Não tem bala meu véio! Aí rodamos a noite inteira procurando munição...até pro cara que estava marcado pra morrer nós pedidos. Deu sorte o camarada.
E ele também. Próximo de completar 24 anos lembra que quase todos os conhecidos daquela época morreram ou estão presos.
Hoje trabalha 15, 16 horas por dia. Faz o que tiver pra fazer, menos “coisa errada” como ele diz.
Puxei o maço de cigarro, ofereci um pra ele. Nossas histórias se cruzam todos os dias, mas nunca havia parado para ouvir como ele chegou até ali...

domingo, 13 de março de 2011

Ela nos espreita, sempre...

Consentimos, por vezes. Procuramos por ela até. Deitamos e nos deleitamos. Dividimos o espaço da cama, num ritmo harmonioso. Fantasiamos...ah, como fantasiamos. De olhos abertos ou fechados nos deixamos levar. Não há começo ou fim estanques, concretos. Há meio, e ainda assim, melhor dizermos no plural, meios...fluidos, abstratos.
Nos enredamos num jogo de olhares, de palavras, de sentidos. Sentimo-nos catapultados por ela. Explodimos em gozo na palavra gritada, arremessada na nossa cara ou no sussurro arrastado, lento, até que as letras se encaixem numa ideia inteligível. E gozamos de novo e de novo e de novo...o gozo da dúvida que se aconchega e nos faz querer mais, questionar mais, num ciclo frenético e construtivo.
Ciclo que se rompe quando ela chega sem ser convidada. E ela chega...nos empurra paro o canto da cama. Não há harmonia em nosso ritmo. Sufoca, nos torna refém.
Começo e fim têm a última palavra, e o meio já não nos inspira. Nada mais há do gozo proporcionado pela dúvida que nos impele a novas descobertas.
Nada!!!
A dúvida é agora angústia e me rouba o sono. Ela nos espreita, sempre...

domingo, 6 de março de 2011

Sorrisos que entristecem

Aqueles com ar de obrigação, aqueles que pretendem preencher um vazio, aqueles sem graça porque graça não os motivaram. Gosto ainda menos daqueles para cumprir tabela, sabe? O dono não entendeu o que você falou, mas sorriu...
Prefiro os debochados aos calculistas. Os tímidos de fato aos simpáticos de plantão. Os irônicos aos dissimulados.
O sorriso de raiva contida, de medo, de angústia. O sorriso que esconde quem te olha. O sorriso de quem se compraz em artimanhas.
O sorriso de subserviência...esse, talvez, o pior deles!!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Mais um dia...

- Posso entrar?
A voz tímida, quase sem graça, constrangido mesmo. Ao sentar a minha frente se colocou cabisbaixo...
- Se algo acontecer comigo foi o meu filho.
Não entendi da primeira vez. Já tinha trocado algumas palavras com aquele homem, nada sobre família.
Minha expressão deve ter mostrado que a frase não surtiu o efeito esperado e ele logo completou.
- Meu filho está me ameaçando...disse que vai me matar.
Tomei um susto. Primeiro, não queria aquela responsabilidade. Imaginei chegar no dia seguinte para trabalhar e receber a notícia que aquele homem havia sido assassinado.
Segundo, o que eu podia fazer? Levá-lo a polícia?
Ele tinha medo. O filho poderia descobrir e as coisas ficariam ainda pior.
Ouvi o desabafo. Contou que o filho está envolvido com o tráfico de drogas e que outro dia chegou em casa todo sujo de sangue...
- Perguntei o que tinha acontecido e ele foi curto e grosso: matei um sujeito, o próximo vai ser você!!
Insisti que deveríamos ir a policia, mas não o convenci, ainda.
Hoje ele me deu bom dia...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dor e covardia

Dessa vez era diferente, isso ela sabia.
Tinha visto tantos carimbos que acabou memorizando o formato das
letras e a ordem delas...ler não sabia, mas tinha certeza que era
diferente de todos os outros vistos até ali.
Esperou horas para ser atendida e agora tentava entender o que o
advogado dizia.
Entre uma frase e outra, para ela meio sem sentido, percebeu que os
quase três anos de espera tinham chegado ao fim.
Para chorar não tinha forças. Por inúmeras vezes caiu em prantos,
sozinha na maior parte dos momentos. Outras tantas, sem se importar
com quem do lado estivesse, bastava que algo lembrasse o filho.
O tempo não havia cicatrizado a ferida da perda, e ela tinha certeza,
a dor jamais passaria, nunca.
Quando o filho foi assassinado ainda não havia completado 15 anos. Mas
desde os 12 estava no movimento, na pista, como ele gostava de dizer.
E subiu rápido. De fogueteiro passou a soldado...aí a guerra se
encarregou do destino. A cada amigo que tombava no confronto com
outro traficantes ou com a polícia, ele subia na hierarquia, e assim,
de morto em morto, assumiu o comando da boca.
Naquele dia contava para os mais novos como tinha chegado até ali.
Moço já sabia que naquele negócio não dá para dar bobeira.
E o inimigo também sabia.
- Perdeu...é nossa - gritava um dos traficantes do morro vizinho.
A invasão foi rápida, alguém deu a fita toda, para ele estava na cara.
Não teve tempo para descobrir. Foi encontrado morto com sete tiros pelo
corpo.
Quem matou tudo mundo sabe, mas ninguém sabe.
O baiano, o pezão, o mosca...no crime apelido apaga o nome do sujeito.
A história dos meninos é curta ainda que muitos de nós acreditemos que
garotos assim já nasceram bandidos.
As investigações nunca deram em nada. Ainda que o baiano, o pezão e
o mosca fossem suspeitos, quantos deles há por aí?
E pior, a investigação já se arrastava por tanto tempo, que mesmo
que a polícia chegasse aos nomes corretos, era bem possível que
estivessem mortos.
A sobrevida de traficantes gira entre 3 e 4 anos.
Daí porque boa parte dos processos abertos nas varas de justiça espalhadas pelo país, abertos vão permanecer. Não há solução...nunca.
Seja pelos motivos já citados, seja pela ineficiência e pela morosidade dos órgãos públicos, o fato é que o Estado é covarde!!
Sim, não tem coragem de assumir para milhares de famílias
que esperam notícias que os casos são insolúveis e, portanto deveriam
ser arquivados.
Enquanto o Estado não resolver enfrentar os próprios cadáveres,
famílias vão continuar esperando, esperando, esperando...
Quando aquela mãe viu o carimbo e recebeu a notícia que o caso da morte do filho não seria resolvido um ciclo se fechou.
A dor não diminuiu, a raiva aumentou.
Melhor a certeza de que as respostas não virão, ou, melhor a dúvida de que um dia as perguntas sejam respondidas, ainda que as autoridades, essas sim, tenham a certeza que são incapazes de dar as respostas desejadas?