sábado, 26 de setembro de 2009

Um brinde

Verde, um verde translúcido. Dois dedos apenas no copo e uma pedra de gelo mergulhada. Na boca um gosto de ervas, forte. Não queima, mas a sensação é de ardor. Ganhei de um casal de amigos, bons amigos...
É meu brinde a chegada do final de semana. Madrugada adentro e um vento gelado entrando pela porta da varanda entreaberta. Eu, o copo de licor e o cigarro. Já dizia Lobão, quando menino eu ainda era, tudo isso não é vício...são companheiros da solidão...
Não aquela que sequer pede licença para entrar em nossas vidas, não. Sozinho comigo, com meu espaço, com minhas dúvidas e certezas, com minhas próprias vozes, com meu silêncio. Quando embalado por uma canção ao fundo, baixinha, nada melhor. É como visitar minha história, refazer os caminhos que me trouxeram até aqui ou imaginar as bifurcações que ainda terei pela frente.
Um tempo, raro tempo para saborear a vida!

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Sempre bandidos e mocinhos

A vítima libertada, o bandido morto. Um tiro na cabeça.
- Uma ação bem sucedida da polícia...com muitos aplausos da população.
Foi assim que a repórter da rádio CBN terminou a matéria sobre um assalto seguido de sequestro, hoje, no Rio de Janeiro.
Como assim, amiga?
É até compreensível que como cidadã ela tenha o discurso do senso comum. Há, sim, um clamor popular por respostas mais severas da polícia em relação aos criminosos, fruto, em muitos casos, da própria insegurança.
Agora, amplificar o discurso em rede nacional é, no mínimo, falta de responsabilidade. Não é tarefa nossa atribuir juízo de valor aos fatos, portanto, não tem cabimento dizer que a ação foi " bem ou mal sucedida".
Os atiradores de elite são uma opção tática da polícia, treinados e amparados na lei. Não são heróis, como ouvi o apresentador de um dos programas da tarde dizer. Também não devem ser considerados vilões quando erram...são profissionais, pagos pelo Estado, com a função primeira de preservar vidas, qualquer que seja.
Fujamos dos arquétipos!!!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Ah, o alvará!

É curioso como as coberturas jornalísticas ganham sempre um tom. No caso da explosão da loja de fogos de artifício em Santo André parece que é a negligência... do proprietário sim, da prefeitura sim. Um porque não seguiu as normas de segurança e sequer tinha licença para funcionar, o outro porque não fiscalizou como é sua obrigação.
Mas no enredo dessa história faltava o drama, aquele ingrediente capaz de sensibilizar as pessoas, de fazê-las parar por um instante e prestar atenção no desenrolar dos fatos.
Na tarde de hoje, a explosão! Imagens captadas pelo celular pipocaram na internet; helicópteros no ar; ritmo frenético nas redações. Uma, duas, três, sabe-se lá quantas vítimas... A história do comerciante que vendia fogos de artifício sem licença e da prefeitura que não fiscalizou está sendo finalmente contada....a história que nós jornalistas negligenciamos.
Mais de 80% dos estabelecimentos comerciais em São Paulo não têm alvará de funcionamento, resultado tanto da burocracia do sistema, quanto da má-fé.
Lembro de um amigo que me dizia sempre que o leitor, o ouvinte ou o telespectador nos dá todos os dias um "alvará" para falar em nome deles, cobrar quem deve ser cobrado. Negligenciar a isso é como deixar a nossa licença perder o prazo de validade...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ainda é tempo

A terça já se foi...que venha a quarta-feira. Madrugada ainda...ainda não jantei, ainda não veio o sono, não desliguei ainda. Pelo contrário, despertei!
Acabara de navegar por um blog (http://www.umacasaoutravida.wordpress.com/) de um trabalho de conclusão de curso. Me senti incomodado.
Dois meninos, três meninas. Classe média, famílias estruturadas, até onde eu sei...cursam o último ano de jornalismo.
Estão descobrindo agora que lá fora há um mundo muito maior que o mundo deles. Cruel, inóspito, duro, por tantas vezes sem perspectiva. Dói, como dói...
Não há mais segurança, não há mais certezas absolutas. A dúvida é a nova companheira. Quem sempre discorreu sobre tão diversos assuntos com a petulância da juventude, aprende a ouvir.
Novos sentimentos vão sendo forjados. A repulsa, a empatia, o desejo de fazer algo. A realidade vicia-nos...queremos mais, sempre mais!
Por alguns instantes nos sentimos culpados. Bebemos desse elixir, mas não nos parece correto. A sensaçao não nos impulsiona à ação...ressaca!
É hora de vomitar, por para fora aquilo que engolimos. Conte-nos as histórias, cada gole, cada trago...e brindemos!
Ainda é quarta-feira, ainda há um longo caminho a percorrer, ainda é tempo de fazer jornalismo de qualidade...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Bronca

- Entrei no blog e o último texto é de sábado?!
Uma mistura de bronca e decepção...e ela tinha razão, afinal escrever diariamente é o mínimo de respeito com quem se dá ao trabalho de ler o que acho que tenho para dizer. Enfim...
Nesses últimos dias algo tem me incomodado. Conversando com alguns amigos levantamos diversas histórias de jornalistas que usam a profissão em benefício próprio. E nada, nada é pior que isso.
Imagine-se em uma cobertura de apreensão de material pirata. Milhares de bonés falsificados. Sem a menor cerimônia o colega pergunta para o delegado:
- Posso levar alguns pra mim??
Não amigo, não pode... mesmo que essa não tenha sido a resposta da "autoridade". Aliás, não poderia sequer perguntar. É crime, é indecente, é porco!
O que você diria se um policial, ao conseguir recuperar um produto roubado, como uma quantia em dinheiro, por exemplo, se apoderasse de uma parte para ele?
Com que moral podemos falar de assuntos como esse, se agimos tal qual o bandido? Não é uma questão de valor da mercadoria, mas de princípios.
Lembro de uma reportagem que queríamos fazer sobre fraudes cometidas na renovação da carteira de habilitação. Uma jornalista, com o limite de pontos já ultrapassado, se dispôs a emprestar o documento para que mostrássemos como funcionava o esquema que retirava a pontuação do motorista. Feito isso, entregaríamos a carteira para o Detran e questionaríamos o órgão sobre a fraude.
- Não, aí não. Quero ficar com o documento limpo.
Pouco importa se isso era completamente contraditório com o que queríamos retratar. Na cabeça dela, se é possível levar vantagem, por que não?
É como o jornalista que quer assistir uma peça de teatro, filme ou show e liga para o assessor de imprensa solicitando o ingresso. A famosa "carteirada", sabe?
Quer? Pague. Não pode haver outra forma... a não ser para aqueles que acreditam que ética é um conceito abstrato, sem relação alguma com as miudezas do dia a dia.
Aí, bom, aí a decepção nem vale uma bronca...

sábado, 19 de setembro de 2009

A escolha é de quem?

Enfoques diferentes sobre os assuntos são sempre bem-vindos. Quando se trata de publicações semanais então, que têm como um dos principais objetivos aprofundar os fatos mais relevantes, são imprescindíveis.
A questão é quando o enfoque subverte o conteúdo informativo. É justamente com essa sensação que fiquei ao ler as reportagens sobre a indicação do Advogado Geral da União, José Antônio Toffoli, para o Supremo Tribunal Federal.
A "IstoÉ" trata o assunto apenas com uma nota. A "Época" direciona a reportagem para o fato do advogado ser a oitava indicação de Lula para a mais alta corte do país, as afinidades políticas com o PT e destaca algumas vitórias de Toffoli à frente da Advocacia-Geral da União.
Já a "Veja" não fala nada sobre a atuação dele no governo, pelo menos não no governo federal. A revista relata dois processos decorrentes de contratos celebrados com o governo do Amapá, entre 2000 e 2002.
Todas as informações publicadas são importantes para que o leitor possa formar uma opinião sobre o assunto. Mas, detalhe: ele só consegue isso se ler mais de uma publicação.
Em nome do enfoque, o leitor acabou sendo privado. Os veículos têm o direito de elencar aquilo que consideram mais relevante, mas que fica um ranço de trabalho mal feito, isso fica. Sem falar na falta de respeito com quem pagou R$ 8,90 por cada revista...

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O resto é festa...

Dois técnicos, dois campos distintos...os dois foram criticados, os dois ameaçados de demissão, os dois superaram a crise.
Futebol e economia. Radinho de pilha no ouvido, bandeira na mão e uns trocados no bolso para a cerveja e o churrasco. O resto é festa, como diz um amigo.
Simplista? É sim, mas é a vida real de boa parte dos brasileiros. É como um termômetro.
Me pergunto se nesse último ano conseguimos captar a temperatura desses dois campos. Dunga foi criticado por não mexer na seleção...Henrique Meirelles por ser lento nas mudanças no Banco Central.
Até aí, tudo bem, a crítica faz parte do jogo. Mas será que não exageramos? Será que não demos mais atenção aos sinais negativos? Será que não valorizamos a velha máxima de que boa notícia é notícia ruim?
Eu acho que sim...essa semana, uma frase do Henrique Meirelles, presidente do Banco Central , no Especial Pós-crise, da revista Veja, chamou a atenção: "Penso que as críticas derivam do mau entendimento do que ocorreu e de um equívoco de avaliação. Isso me deixa um pouco entristecido. É como se o país tivesse entrado e saído da crise por obra de uma magia, sem que nada tivesse sido feito para atenuar os efeitos do choque externo".
Pois é, não me parece que Meirelles ataque para se defender. Assim como não é o estilo de jogo de Dunga. Questionado se as falhas argentinas não influenciaram a vitória brasileira, soltou a bomba: "No Brasil, em nenhum momento a gente tem mérito. Quando a gente ganha, é a Argentina que falhou. A gente treinou a bola parada durante a semana, mas a pergunta é esta. A gente nunca tem mérito. É difícil, é complicado."
Nós jornalistas podemos, comodamente, tirar o time de campo e desprezar as críticas, ou repensar nossa tática de jogo e entender que somente sorte não garante placar. Mérito é notícia boa...e boa notícia!